Cidade Devastada

“Gaza Fire”. Um homem palestino passa por um incêndio em uma rua repleta de casas destroçadas em Shejaiya, na Cidade de Gaza (AFP).

 

É meio-dia e o sol não brilha, está frio e o céu há muito enegreceu. Caminham homens, sem rumo, em uma cidade devastada. Nela não há, senão, prédios em escombros, pó e cinzas, alguns ainda queimam, vagarosamente, e desfazem-se, quais os outros, em escombros; em pé, somente uma grande muralha, cercando a cidade – curiosamente fendida, de modo que pode um homem passar, embora com dificuldade – e um grande portão que não mais abre.

Nas ruas não há alegria, não há cor, senão a do pavimento e das ervas daninhas que o rompem, senão a dos espinheiros que ali crescem e, hora ou outra, conseguem tingir o cinza com gotas de sangue dos estranhos homens que ali passam e se ferem. Corvos e abutres sobrevoam a cidade, lembram seus habitantes de seu destino – a morte. Lobos vorazes por ali também correm, fascinando alguns e fazendo-os de presas, e serpentes rastejam por sobre o pavimento roto.

Os habitantes desta cidade devastada são quais imagens da mesma. Criaturas vis, em feições e afeições, homens cheios de ferimentos, como que de lepra, vestidos de trapos sujos, sujos das cinzas do lugar e das suas próprias feridas; de olhos semicerrados por um lodo, que turva suas visões, andam eles com uma branca e polida máscara, num falho intento de esconder de si a face degenerada do que já fora belo, de esconder quão pútridos são. Vagam eles, ali, sem rumo, acorrentados, embora disso não se apercebam, deleitando-se em tudo que é efêmero e mal.

Por que temem estes homens aproximar-se daquela fenda no muro? – Seria a liberdade desta cidade-prisão. Não se aproximam porque ali há, junto ao muro, um abismo, e somente se pode passar por uma pequena ponte criada pelas pedras que do muro caíram, e que, aos olhos semicerrados daqueles homens, não é agradável. O que há além dos muros? Também não sabem eles, pois, além da fenda, só veem uma ofuscante luz, que à maioria faz tremer, mas, a alguns poucos atrai, e, dali, estes, não volvem iguais. Mistério cerca estes fatos, e os disformes homens se põem a imaginar o que há ali fora, e como passam alguns por aquela ponte com vida e tornam à cidade, segundo eles, a transtorná-la com histórias além do muro e de como por ele passaram. Recusam-se, muitos, a crê-los, e põem-se a observar aquela luz e fenda, e só pensam no brilho daquela luz e na forma daquela fenda.

Os homens que dos muros passam, voltam limpos, sem máscaras, faces lavadas e olhos abertos, vestidos com roupas novas e alvas; acautelam-se dos lobos, mas os corvos e abutres não mais os assustam, embora ainda os lembrem da efemeridade de seus corpos; voltam dali sem correntes que os prendam e, d’alguma forma, refletindo aquela luz, qual a lua reflete a do sol. Felizes, não temem falar das maravilhas que os ocorreram desde que foram atraídos por aquela luz, e por aquela ponte e fenda passaram.

Falam das terras onde pisaram, onde já há cores e fulguram o sol e as estrelas em um céu multicolor; falam de campos verdejantes, que ainda não puderam ver ou pisar, onde não há rapina nem serpentes, nem espinhos, nem sofrimento algum, onde aquela luz brilha tão fortemente e ofusca todas as estrelas. Contam porque brilha aquela luz naquela fenda – que, suponho, tu já saibas a forma – e apercebem-se os homens da devastada cidade porque neles ela reflete, levando alguns, também, àquele mesmo caminho, mesma mudança e a tornar ali falando das mesmas maravilhas.

Que esta cidade-humanidade seja atraída pela divina luz e creiam no meu testemunho sobre esta fenda-cruz!

 

Soli Deo Gloria!

 

Tarciso Rodrigues

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